terça-feira, 2 de outubro de 2012

Perdi-me do nome.



Ela enfeitiçou-me. Eram exatamente oito da manhã. Acordara pouco antes disso. Após me preparar-me para mais um dia de afazeres e atribuições,deixei minha residência. Em poucos minutos, ao deparar-me com ela, pude sentir uma confusão positiva de estímulos dentro de mim: uma explosão conjugada de todos os tipos de sentimentos. Meus pensamentos de uma vida inteira foram, gradativamente, passando pelas lentes escuras dos meus óculos e, por conseguinte, fui lentamente me rendendo e me entregando a essa maravilhosa descoberta matinal. Ela era mística e diferenciada. Ela misturava todos os tons em um só. As várias notas combinadas combinavam com sua composição. Magníficas curvas, lindo remelexo, imponente e bela: ela era totalmente sensacional. Não podia tocá-la, porém pude senti-la perto de mim. Esqueci-me completamente do meu propósito naqueles segundos. Meu cansaço e minha tristeza evaporaram do meu corpo sem que eu expelisse uma gota de suor. A magia do seu balanço fez-me enxergar a falta de valor que muitas pessoas deixam de dar não só a ela, mas também a todas as outras como ela. Seu olhar firme, às vezes provocante, embalaria facilmente qualquer alma clamante por felicidade. O seu poder de sedução era tão transcendental que elevei-me a uma estratosfera distinta da atmosfera. Não sentia a gravidade. Meu corpo vibrava e se deixava levar pelos seus gestos e compassos. Pude nitidamente perceber o quão real era tal situação no momento em que ela arrancou o seu carro e buzinou para mim.

No decorrer do dia, tudo o que fazia me remetia a ela. Eu só pensava nela. Por um segundo, indaguei-me como pude ter sido tão tolo e não tê-la perguntado o seu nome; por não ter tido nenhum tipo de ação ou reação para me comunicar com ela, embora esta, por si só, ter dito muita coisa... Eu só a ouvi e apreciei. Gostaria de encontrá-la novamente, em algum semáforo, com seus vidros abertos para refazer-me feliz, como sempre fico e como sempre ficarei quando deparar-me com alguma similar a ela. Definitivamente, ela tinha o poder de mover montanhas, de despertar instintos, de manipulação, de sedução, de depressão, de tristeza, de alegria, de fantasia, de sonho, de viagem, de liberdade, de movimento, de poesia, de melodia, de prazer, de pausa, de corte, de construção, de badalação, de criação, de evolução, de transformação, de revolução, de respeito, de abuso, de repúdio, de protesto, de lamento, de sorriso, de nuvens, de céu, de sol, de breu, de morte e de vida, além de inúmeros outros. Apesar de mesclar tudo e mais um pouco, contraditoriamente, ela tinha o simples e complexo poder de mudar o mundo. Ela era a música mais linda que já escutara em toda a minha vida!

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